Ministros do Superior Tribunal de Justiça criticaram o recente vazamento do depoimento de uma ex-assessora do ministro afastado Marco Buzzi, no qual ela relata um possível episódio de assédio. O depoimento, publicado pela coluna Radar, da revista Veja, mostra a ex-funcionária relatando episódios em que Buzzi teria cometido importunação sexual.
O vídeo divulgado nesta 5ª feira (9.abr.2026) mostra a ex-assessora prestando depoimento à juíza Cláudia Catafesta, ao representante do Ministério Público José Calou e ao seu advogado, Matteus Macedo. O relato foi feito no Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em 9 de fevereiro e contou também com a presença do corregedor nacional de Justiça, ministro Mauro Campbell, e do subprocurador-geral José Adonis.
O depoimento foi divulgado dias antes da sessão do plenário do STJ que analisará a abertura de um processo administrativo disciplinar (PAD) contra Buzzi, sob suspeita de importunação sexual. Além do relato da ex-assessora, apura-se também um episódio de assédio contra uma jovem de 18 anos, filha de advogados que frequentavam a casa do ministro durante as férias.
Ministros do STJ afirmam que a divulgação do vídeo pode dificultar as investigações administrativas do CNJ e as apurações criminais da Polícia Federal. Avaliam que a exposição pode inibir novos depoimentos de possíveis vítimas. Também consideram que o vazamento de provas pode ser questionado pela defesa de Buzzi em eventual sanção administrativa.
A defesa de Buzzi afirmou, em nota, que “repudia o vazamento do depoimento da segunda denunciante”. Os advogados dizem que o ato busca pressionar o plenário do STJ e afirmam haver “seletividade” no vazamento apenas de provas que corroboram “elementos de acusação”. Leia a íntegra ao final desta reportagem.
Em 31 de março, a Procuradoria Geral da República manifestou-se pela abertura de inquérito criminal contra o ministro. O órgão afirma que as provas e os depoimentos colhidos pelo CNJ são suficientes para iniciar investigação mais ampla pela Polícia Federal. Como o investigado tem prerrogativa de foro, o caso tramita no STF, sob relatoria do ministro Nunes Marques.
“As declarações prestadas pela vítima, somadas às provas já produzidas nas instâncias administrativas, apresentam-se como suficientes para deflagrar a persecução penal, notadamente porque amparada por elementos mínimos de informação”, diz trecho do parecer do procurador-geral da República, Paulo Gonet.
NOTA DA DEFESA
“A defesa do ministro Buzzi repudia o vazamento do depoimento da segunda denunciante, divulgado em texto e vídeo nesta semana.
O ato viola as regras de sigilo do procedimento, atenta contra as garantias fundamentais do investigado e visa, deliberadamente, pressionar o Superior Tribunal de Justiça. É também uma violação das garantias fundamentais de todo e qualquer cidadão, bem como da própria advocacia.
Não é casual que todos os vazamentos verificados neste caso tenham envolvido exclusivamente elementos de acusação.
Os múltiplos elementos de contraprova e o interrogatório do investigado jamais receberam qualquer publicidade. A seletividade é a prova da estratégia —e o avesso da lealdade processual.
A defesa confia na independência e no histórico institucional do tribunal para que tais manobras não alcancem o efeito pretendido.”
ENTENDA
O ministro Marco Buzzi, 68 anos, é investigado por supostamente ter importunado sexualmente uma jovem de 18 anos. Segundo apurou o Poder360, 3 ministras do STJ levaram o caso ao presidente da Corte, Herman Benjamin, na semana anterior. Pediram a apuração dos fatos e eventual aplicação de sanções. A informação foi publicada inicialmente pela Veja e confirmada por este jornal digital.
O caso foi levado às ministras pelos pais da jovem, que pediram a responsabilização do magistrado. Segundo relatos obtidos pelo Poder360, Buzzi teria tentado agarrar a jovem durante um banho de mar em Balneário Camboriú (SC). A família estava hospedada na casa do ministro.
O gabinete de Buzzi negou as alegações. “O ministro Marco Buzzi informa que foi surpreendido com o teor das insinuações divulgadas por um site, as quais não correspondem aos fatos. Repudia, nesse sentido, toda e qualquer ilação de que tenha cometido ato impróprio”, declarou.
