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Distrito da Confusão (Crônicas de Odylo Costa, filho)

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Distrito da Confusão (Crônicas de Odylo Costa, filho)

Briga de príncipes  (Folha da Noite – 18-9-1956)
Não temos tido ultimamente muito motivo de alegria, os republicanos brasileiros (falo republicanos de convicção, não do P.R., partido onde cabem o meu querido Prudente de Morais, neto, e o sr. Artur Bernardes, filho, o que é expressivo também pela ascendência). Ainda assim, não nos alegremos com a desventura alheia. Não seria justo — sentido tão essencial à República que ao título do livro de Platão que tem esse nome os comentadores medievais acrescentaram: “ou da Justiça”.

Sim, não seria justo. Mas seria humano. Republicanos, nesta maré baixa de júbilos apareceu um desgosto no campo adversário. Se não fosse aquele impedimento ético, seria motivo para um esfregar de mãos.

Na verdade, porém, o campo de há muito deixou de ser adversário. O monarquismo brasileiro confraternizou com os costumes republicanos. E de tal sorte que rejubilar-se com as desditas monárquicas seria tão ridículo quanto colocar uma bomba em estrada de ferro por onde há anos não passa trem. E mereceria um aviso igual ao daquela caricatura de Chas Addams, americano que se diverte em imaginar o horror dentro do riso: uns bandidos amordaçam uma vítima, amarram-na toda, e vão deixá-la sobre uns trilhos ferroviários, quando de cima do barranco uma plácida assistente adverte: — Não é da minha conta, mas esse desvio há muito tempo está abandonado…

Mas que há no campo monarquista? — perguntará o leitor. Há isto: príncipes brigam feio.

Apareceu por aqui um descendente do duque de Saxe. Os descendentes do conde d’Eu parece que não gostaram da presença do primo. Talvez haja complicadas questões de herança, primogenitura e sucessão que foram redivivas por essa presença. O certo é que um cronista social falou muito em d. Carlos de Tarso de Saxe-Coburgo e Bragança. E não demorou muito d. Pedro Gastão, através de d. João de Orleãs e Bragança, informava ao jornalista que o título usado por d. Carlos fora “outorgado pela lista da Companhia Telefônica Brasileira”, após ter requerido em cartório mudança de sobrenome com que desembarcara no Brasil: barão de Lamoral.

Eu nessas coisas de genealogia e usanças principescas não sou forte. Mas que o moço príncipe é primo do outro isso é. D. Pedro II gerou Leopoldina, Leopoldina casou com o duque de Saxe, o duque de Saxe foi pai de d. Augusto, d. Augusto pai de da. Teresa, da. Teresa, mãe do jovem d. Carlos. Tudo isso o meu sangue republicano ia dizendo fede — cheira a sangue real.

Soube, agora, de outras coisas que tornam simpático d. Carlos: trabalha em lavouras no Paraná e vai casar com moca brasileira de sangue republicano. Eis o que é duplamente bom.

Revela ele, assim, um equilíbrio que não era do misero (o adjetivo é de Capistrano de Abreu) tio, o pobre príncipe d. Pedro Augusto, que perturbou com seu delírio de perseguição a viagem de exílio de Pedro II a bordo do “Alagoas”, mas era do avô, a quem o Imperador enviou para Ceilão, onde se encontrava, em viagem de circum-navegação, no 15 de novembro, este sóbrio conselho: “Sirva o Brasil.”

O espírito epigramático de Pedro II foi herdado, pelo que parece, por d. João, de quem se conta esta palavra cruel, depois da morte do sr. Getúlio Vargas, em um ambiente em que se profetizavam tragedias à base da carta atribuída ao presidente suicida: “Antes a carta que a presença.” D. Pedro Gastão tem o instinto da ironia, mas não a verdadeira vocação dela, que reside em ferir exato. O arranhão superficial das lâminas cegas machuca mais do que corta. A equimose sara depressa.

Nesse entrevero, nós, sapos de fora, não damos palpite. Bem sabemos que em briga de jaó nambu não pia; e sabemos também que os Bragança no Brasil sempre foram de muita briga. D. João Vi com da. Carlota Joaquina, d. Pedro com o pai, o irmão e a primeira mulher. Da. Isabel queixou-se ao comandante do “Alagoas”: “Implantaram a discórdia na família”. Mas a santa brasileira esquecia que sangue real é, por essência, brigador. Felizes somos nós que temos hoje os príncipes na lista da Companhia Telefônica, lutando por um trono ainda mais vago do que o governo do dr. Juscelino.

Odylo Costa, filho