O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, afirmou nesta terça-feira (27) que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) precisará manter o equilíbrio fiscal e formar uma equipe econômica alinhada para evitar dificuldades no quarto mandato, a partir de 2027.
Kassab alertou para o risco de desgaste do governo diante de um Congresso Nacional mais crítico e da cobrança da população pelo cumprimento das promessas de campanha. A avaliação foi feita durante o evento “Quadriênio 2027-2030: O que esperar dos eleitos?”, promovido pelo Dominium Group.
“Se ele não fizer um bom governo, vai se associar a decepção da sociedade junto a uma hostilidade do Congresso Nacional. E não há outra saída a não ser um bom governo”, afirmou.
Na avaliação do dirigente, Lula deverá escolher ministros da Fazenda e do Planejamento com conhecimento técnico e capacidade de articulação para conciliar a manutenção dos programas sociais com o controle das contas públicas.
Ele citou o primeiro mandato do petista como referência para a condução da política econômica, quando, segundo ele, foi possível ampliar os programas sociais e preservar o equilíbrio fiscal.
A preocupação também foi abordada pelo economista-chefe da Galápagos Capital, Cláudio Ferraz, que apontou o crescimento da dívida pública, diante de resultados primários negativos, como um dos principais desafios dos próximos anos.
“Um desafio do país nos próximos anos é a discussão das contas públicas”, reforçou Ferraz. Segundo ele, a situação fiscal é uma possível fonte de preocupação dos mercados, refletida na volatilidade cambial.
No campo econômico, Ferraz apontou que os próximos cem dias poderão ser relevantes para as perspectivas de crescimento, diante de sinais de desaceleração da atividade, pressões inflacionárias e incertezas internacionais.
No evento, a relação com o Legislativo também foi destacada por Kassab, que afirmou que o PSD estará disposto a apoiar propostas consideradas positivas, mas sem alinhamento automático ao Palácio do Planalto.
“Nesse momento é importante que o presidente entenda que iremos ajudá-lo a ser um bom presidente, mas estaremos atentos, vigilantes para fiscalizar. Eu acho que a independência é fundamental”, disse.
Para Marcelo Moraes, fundador do Dominium Group, os ajustes na área econômica e nas articulações políticas devem ser céleres para a nova gestão petista, sob o risco de impactos em investimentos.
“O importante é que os ajustes sejam rápidos, tanto na economia quanto na política. A economia não pode demorar muito tempo para se estabilizar porque o valor das empresas vai se destruindo e também, na política, se não tivermos regras claras rapidamente, os investimentos não chegam.”
Leandro Gabiati, da Dominium Consultoria, apontou ainda que o Congresso passou a disputar maior influência com o Executivo diante da autonomia financeira e do controle de aproximadamente R$ 60 bilhões em recursos de emendas parlamentares.
Para o especialista, a negociação com os parlamentares será central na definição das prioridades do próximo governo.
Reformas estruturais
Kassab também defendeu a aprovação, ainda neste ano, de uma proposta inicial de reforma do Judiciário que estabeleça idade mínima de 60 anos para a escolha de integrantes dos tribunais superiores, mandatos de 12 anos e quarentena de dois anos após o exercício do cargo.
“Acredito que acalmaria o país uma medida como essa aprovada”, afirmou.
Segundo o dirigente, a iniciativa permitiria reduzir as tensões institucionais enquanto mudanças mais amplas nas atribuições do Judiciário fossem discutidas.
Sobre uma nova reforma política, Kassab defendeu mudanças no sistema eleitoral brasileiro com a adoção do voto distrital misto. O modelo divide os estados em “distritos eleitorais”, nos quais os eleitores poderiam votar apenas em candidatos que representam aquele local.
Uma outra parte das vagas é distribuída por voto no partido, com uma lista de candidatos definida pelas siglas.
“Pela primeira vez, o PSD fechará questão em relação ao voto distrital misto no sentido de dar o apoio a esse projeto”, disse a jornalistas após o evento.
O presidente do PSD também defendeu uma reforma administrativa voltada à contenção de gastos e ao enfrentamento de privilégios, com o objetivo de ampliar os recursos disponíveis para investimentos sociais e em infraestrutura.
“A reforma administrativa é fundamental. Diminuir o Estado, conter gastos, enfrentar privilégios”, declarou.
Para Kassab, as mudanças poderiam abrir espaço para a redução da carga tributária, mas ele condicionou o avanço das propostas à disposição do governo de encaminhá-las.
O dirigente avaliou ainda que Lula terá a oportunidade de conduzir o próximo mandato sem a preocupação de disputar uma nova eleição, mas precisará construir apoio político para implementar sua agenda.
Kassab defendeu que partidos de diferentes campos, inclusive o PL, estejam preparados para fiscalizar o governo e apoiar projetos considerados favoráveis ao país.

