Você já parou para pensar que aquela pipa – ou papagaio de papel, quadrado e arraia – flutuando sobre os telhados começou a sua jornada em campos de batalha no Oriente? Tudo teve início na China antiga, por volta de 1200 a.C., com varetas, seda e bambu.
O brinquedo preso ao fio teve seus primeiros registros escritos de voo em 200 a.C., e a brincadeira na época era bem mais séria: modelos gigantescos erguiam homens para espionar o exército inimigo, enquanto cores e movimentos no céu enviavam mensagens secretas à distância.
O assunto era tão decisivo que o imperador chinês Wu, que reinou entre 141 e 87 a.C., usou a tecnologia para pedir socorro ao ser cercado por tropas adversárias em Nanjing. Com o passar do tempo, a novidade atravessou fronteiras levada por mercadores árabes até a Europa.
No século XII, as crianças europeias já se divertiam com o artefato preso em cordas, mas a vertente militar continuava forte. Prova disso é o manuscrito alemão Bellifortis, escrito em 1402 por Konrad Kyeser, que trazia a ilustração de um cavaleiro empinando um dragão voador para botar medo nos oponentes.
Dos navios portugueses aos testes de física no quintal
O brinquedo aportou no Rio de Janeiro no século XVI nas bagagens dos colonizadores portugueses. Ao lado dos sinos, a novidade funcionava para avisar sobre os acontecimentos da colônia e animar eventos, como os tradicionais festivais na Sexta-Feira Santa. Paralelamente à diversão, o objeto virou peça chave para a ciência, a meteorologia, a construção civil e até a fotografia.
Em 1752, o inventor americano Benjamin Franklin amarrou um fio metálico na estrutura para provar que raios são descargas elétricas, dando origem ao para-raios. Anos mais tarde, o brasileiro Santos Dumont buscou inspiração na mesma aerodinâmica para projetar o 14-Bis.
Nos bairros brasileiros, o desafio ganhou contornos de pura tática, onde o objetivo é dominar o vento para cortar a linha do adversário, engatar na rabiola e trazer o troféu até o chão.
Da cola de farinha aos espaços oficiais na lei
Nas alturas da zona oeste carioca, pipeiros e baloeiros criaram verdadeiras confrarias. Nas praias, surgiu o papagaio industrializado, mas como faltava flexibilidade ao modelo feito em série, o pessoal preferia a produção caseira.
Fazer a própria estrutura era um ritual: compra de papel fino colorido, bambu e linha 10, com cola improvisada na cozinha usando farinha de trigo com água ou arroz molhado. Para garantir a vitória no combate aéreo, surgiram truques perigosos como amarrar gilete na rabiola ou passar cerol na linha (mistura de pó de vidro moído nos trilhos de bonde com cola de madeira).
Hoje, com o cerol proibido no estado desde a década de 1990 e a venda de kits prontos com linha, cabresto e rabiola nas lojas, a confecção manual ficou mais rara. Mas a paixão continua tão viva nos subúrbios que virou coisa séria: em outubro de 2019, a Lei 8562/19 regulamentou os pipódromos, garantindo locais públicos e seguros para a prática recreativa e grandes festivais.

