O ministro britânico para a América Latina, Chris Elmore, afirmou à CNN Brasil que a nova parceria estratégica entre os dois países vai priorizar a redução de barreiras comerciais, em trabalho paralelo a eventuais avanços nas negociações de um acordo de livre comércio do Reino Unido com o Mercosul – ainda distante de sair do papel, na prática.
“Tudo permanece sobre a mesa em termos de onde poderíamos chegar com um arranjo de livre comércio com o Mercosul. O ponto crucial, no entanto, é que, independentemente de como esse trabalho se desenvolva, ainda estamos trabalhando na redução de barreiras comerciais e garantindo que compartilhemos nossas metas de ciência e tecnologia”, disse.
Há menos de um mês, Brasil e Reino Unido elevaram a relação bilateral para uma parceria estratégica em busca de metas mais ambiciosas e de longo prazo.
Os britânicos estão entre os principais investidores estrangeiros no país, com estoque de investimentos de US$ 35,8 bilhões, em 2024. Os investimentos diretos brasileiros no Reino Unido, por sua vez, ficaram em US$ 6,9 bilhões naquele ano.
A ideia é estruturar a parceria entre 2026 e 2030 em cinco pilares:
- Diálogo Político e Cooperação Internacional;
- Comércio e Investimento;
- Segurança e Defesa;
- Transição Justa e Desenvolvimento Sustentável;
- Conexões Interpessoais.
Elmore recebeu a CNN Brasil na última segunda-feira (13), na embaixada do Reino Unido, em Brasília. Além de Mercosul e questões diplomáticas, o ministro britânico repercutiu temas como exploração de minerais críticos e reforma do Conselho de Segurança da ONU. Confira:
CNN Brasil: Gostaria de começar com a parceria estratégica entre o Brasil e o Reino Unido, porque creio que seja um novo marco na relação entre os dois países. Você poderia explicar um pouco mais o que isso realmente significa e como o cidadão comum verá esse impacto no dia a dia?
Chris Elmore:O cidadão comum deve ver o impacto, fundamentalmente, nos empregos. À medida que desenvolvemos nossas políticas em torno de comércio e investimento, ciência, clima, defesa e relações interpessoais, isso deve significar que, até 2030, ou antes, as pessoas verão bons empregos, transição verde e sustentabilidade entre nossos dois países bilateralmente. Portanto, a nova relação, a parceria estratégica — você tem razão — é um degrau em um caminho de avanço.
Em vez de passarmos de apenas uma relação bilateral que lida com questão por questão ou que pode ser um pouco reativa, esta parceria estabelece o foco de uma determinação real entre o governo do Reino Unido e o Brasil para garantir que sejamos parceiros nos anos que virão.
CNN: E eu gostaria de falar sobre minerais críticos. Como o Reino Unido vê as oportunidades aqui no Brasil?
Elmore: Antes de tudo, trata-se de parceria. Trata-se de garantir que utilizemos nosso apoio à transição verde para o Brasil, inclusive na extração de minerais críticos. Isso pode envolver desde o uso de alguns de nossos principais cientistas da Universidade de Manchester na extração de certos minerais, mas será feito de uma forma de transição verde sustentável. A primeira coisa a deixar claro é que é, fundamentalmente, um processo de parceria entre nossos dois governos.
Naturalmente, temos essas conversas sobre minerais críticos com líderes empresariais, com câmaras de comércio, com ministros, e isso fará parte do programa estratégico. O ponto crucial sobre os minerais críticos é que isso seja feito de forma ecologicamente correta, em apoio ao trabalho mais amplo do Brasil para garantir que os resultados da extração funcionem para o povo do Brasil e para o povo do Reino Unido.
CNN: O Reino Unido vive uma era pós-Brexit. Muitas mudanças, muitas oportunidades também. Gostaria de lhe perguntar sobre o acordo de livre comércio. Existe alguma possibilidade de vermos algo assim entre o Reino Unido e o Mercosul no futuro? Como isso está caminhando?
Elmore: Acho que as conversas pós-Brexit são muito interessantes, e a parceria estratégica faz parte disso. Não se trata de substituir o acordo de livre comércio; é apenas parte desse processo. Mas tudo permanece sobre a mesa em termos de onde poderíamos chegar com um arranjo de livre comércio com o Mercosul. O ponto crucial, no entanto, é que, independentemente de como esse trabalho se desenvolva, ainda estamos trabalhando na redução de barreiras comerciais e garantindo que compartilhemos nossas metas de ciência e tecnologia.
Portanto, na verdade, esse trabalho prossegue em relação ao potencial de um acordo de livre comércio, mas não substitui o trabalho que está acontecendo entre o Departamento de Negócios e Comércio, o Ministério das Relações Exteriores e os ministérios brasileiros aqui em Brasília. Esse trabalho é praticamente constante porque, na verdade, o ponto principal para mim, como ministro do Reino Unido, trabalhando com as contrapartes brasileiras, é diminuir a carga sobre as empresas para garantir que o comércio possa fluir mais livremente, garantindo que estejamos trabalhando de forma mais ampla com parceiros e empresas. É preciso ter em mente que temos uma relação de 200 anos com o Brasil, e algumas empresas britânicas estão aqui há mais de 100 anos.
Essas relações são muito profundas, e o que quero ver é uma redução em qualquer uma dessas barreiras que possam levar, potencialmente, a um acordo de livre comércio. Mas não se trata apenas disso. Trata-se de trabalhar constantemente para garantir que as empresas tenham todas as oportunidades possíveis para se expandirem aqui no Brasil e, crucialmente, para que as empresas brasileiras cresçam no Reino Unido também.
CNN: E hoje, quais são as principais barreiras que você vê no comércio entre o Reino Unido e o Brasil?
Elmore: Acho que parte disso se refere ao arranjo compartilhado de certificação, garantindo que sejamos capazes de diminuir esses encargos. É claro que haverá desafios em torno de investimentos em setores empresariais específicos, mas, na verdade, o que vejo são oportunidades reais, particularmente no setor de serviços financeiros, em ciência e tecnologia e no que diz respeito aos investimentos de fundos do Reino Unido no setor aeroespacial.
O Reino Unido é um líder em ciência. Somos capazes de oferecer esse tipo de apoio e oportunidades estratégicas para que as empresas aqui no Brasil cresçam. Portanto, em vez de barreiras, vejo muitas oportunidades.
[…] Essa ideia de uniformidade entre as mercadorias é algo em que estamos trabalhando atualmente. [Mas certificação em todas as áreas?] Sim, exatamente. Você também pode dizer que existem acordos e arranjos de padrões, para que você tenha essa relação literal de que, se uma mercadoria sai do Reino Unido para o Brasil ou do Brasil para o Reino Unido, ela tenha o mesmo nível de verificações etc. Essa é uma das condições que precisam ser melhoradas. Já existe parte desse trabalho em vigor, mas é uma das áreas em que, se avançarmos para um sistema melhor, traremos mais melhorias e condições comerciais.
CNN: Ainda sobre o acordo de livre comércio… você vê alguma perspectiva no futuro entre o Reino Unido e o Mercosul?
Elmore: Eu certamente espero que sim. Apenas penso que o ponto é que, mesmo com isso na mesa e com essas discussões em andamento, somos capazes de reduzir as barreiras e condições comerciais que trazem melhores resultados para os negócios. É algo que é definitivamente uma ambição, mas, paralelamente, há o trabalho que estamos fazendo agora entre a embaixada aqui em Brasília e funcionários do governo brasileiro, e também entre ministros. E é por isso que a parceria é importante: haverá esse trabalho anual entre ministros para garantir que os resultados sejam impulsionados, e um deles é em comércio e investimento.
Não substitui o acordo, mas é uma parte muito importante de como avançamos para um comércio mais fluido de bens, serviços, defesa, clima e trânsito de pessoas. É uma oportunidade real para nós. Não se trata apenas de um FTA (Acordo de Livre Comércio), mas de um trabalho mais amplo. Há muita coisa acontecendo no momento com as negociações. Há muitas coisas que estamos processando, o que é sempre o caso em conversas sobre arranjos e acordos de livre comércio.
Essa é a mecânica simples de como os governos fazem seu trabalho. Acho que o ponto fundamental para nós é que temos essa relação muito forte entre o governo daqui e o governo do Reino Unido, o que acredito significar que podemos resolver muitos problemas. Apenas leva tempo. Essa é a natureza de qualquer conversa. Não se trata apenas de Brasil ou Reino Unido, mas de qualquer país no mundo.
CNN: Como você disse, esta parceria foi lançada para celebrar os 200 anos de relações diplomáticas. Por que foi determinado que este seria o momento certo para um plano formal de cinco anos, e como este acordo difere dos esforços diplomáticos anteriores?
Elmore: Bem, creio que os esforços diplomáticos sempre importam, e o Brasil é um parceiro extremamente importante nesse processo bilateral, mas também no espaço multilateral. No entanto, a parceria estratégica trata muito de responder à política dos dias atuais.
O ponto central agora é que a parceria não é mais reativa, ela é proativa. Trata-se de dizer que temos estes cinco pilares.
Se pegarmos o engajamento entre pessoas, isso envolve, obviamente, educação, olhar para o apoio em exames, o compartilhamento de cientistas e especialistas tecnológicos. Usar nossa expertise entre ambos os países, porque o Brasil está repleto de especialistas líderes em diversos temas, incluindo clima e natureza, mas muitas outras coisas nas quais podemos trabalhar de forma colaborativa. Trata-se de dizer que sempre trabalharemos bilateralmente.
Às vezes surgirão questões que teremos que tratar de forma abrangente, mas a estratégia mais ampla está muito focada nesses cinco pilares, e é um momento realmente importante, creio eu, para nossos dois países.
CNN: Especialmente neste momento dos Estados Unidos e da China…
Elmore: Veja, creio que, em termos do papel do governo do Reino Unido e do papel do primeiro-ministro em relação à nossa relação global, passamos por um “reset” de 18, 20 meses em nosso papel no mundo, eu diria. O primeiro-ministro esteve na China. Ele tem relacionamentos, obviamente, trabalhando com os Estados Unidos. Vimos uma visita de Estado do presidente Trump em setembro do ano passado, e essas relações importam, da mesma forma que hoje o primeiro-ministro anunciou um alinhamento próximo com algumas condições da União Europeia em várias áreas de regulamentação.
Portanto, acho que se trata de dizer que a relação Brasil-Reino Unido importa. Importa tanto bilateralmente quanto multilateralmente, mas também é estrategicamente importante para ambos os países terem essas metas e objetivos compartilhados, porque o que devemos ver como benefício é o crescimento econômico, mas também, fundamentalmente, empregos, resiliência climática e transição verde.
CNN: O Reino Unido reafirmou seu apoio à candidatura do Brasil a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Como o governo britânico pretende usar seu peso diplomático para acelerar essa mudança?
Elmore: O governo do Reino Unido — e eu sou o ministro para assuntos multilaterais neste contexto também — apoia a reforma do Conselho de Segurança da ONU.
Gostaríamos de ver um assento permanente para o Brasil e uma série de outros países ao redor do globo, incluindo um representante permanente africano, Japão, Alemanha e outros países. Acreditamos ser importante olhar para isso como uma agenda de reforma dentro de um trabalho mais amplo chamado UN80, analisando como a ONU pode ser mais eficiente em termos de burocracia, mas também, crucialmente, como pode ser sustentável para os próximos 80 anos. E, de fato, parte disso poderia envolver a reforma do conselho.
Em todos os relacionamentos podem existir acordos e divergências, mas a amizade permanece. E a relação entre Brasil e Reino Unido é extremamente forte. Somos aliados no sistema multilateral, então usaremos nossa influência para advogar pela reforma, mas também tentando reconhecer que o próprio conselho precisa dessas mudanças, e o Brasil é um parceiro estratégico nessas conversas.
