Manaus (AM) – O governo federal revogou nesta segunda-feira (23) o Decreto nº 12.600/2025, alvo de protestos de indígenas de territórios no rio Tapajós que ocupam há mais de um mês o porto da multinacional estadunidense Cargill, em Santarém, oeste do Pará. A decisão foi anunciada pelo ministro da Secretaria Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, em sua rede social.
“Anunciamos a decisão do governo Lula de revogar o decreto 12.600, após me reunir hoje com os povos indígenas do Tapajós, Tocantins e Madeira. Este governo tem capacidade de escuta do povo, inclusive para rever decisões quando necessário. A decisão será publicada na próxima edição do Diário Oficial”, disse o ministro.
A decisão ocorreu após uma série de manifestações e protestos do movimento indígena, especialmente dos povos Munduruku, Arapiuns e Tupinambá, que exigiram a revogação definitiva do decreto presidencial.
A revogação foi publicada nesta terça-feira no DOU, com assinatura do vice-presidente em Geraldo Alckmin, devido à agenda de Lula em viagem à Ásia nesta semana. Alckmin assumiu o cargo em exercício. A medida inclui o cancelamento das dragagens previstas nos rios Tocantins, Madeira e Tapajós. Para o movimento indígena, a decisão é considerada uma vitória depois de tantos dias de luta.
Em nota, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) enfatizou que aguarda a publicação da revogação no DOU e que “acompanha com atenção o anúncio do Governo Federal sobre a revogação na integralidade do Decreto nº 12.600/2025, que trata sobre a hidrovia no rio Tapajós. Seguiremos atentos às comunicações oficiais para informar nossas bases e a sociedade assim que houver atualização.”
Uma comitiva de lideranças indígenas à frente da ocupação foi a Brasília, onde participou de reuniões oficiais com o governo federal. O grupo foi recebido pelo ministro Guilherme Boulos, e pela ministra Sonia Guajajara, do Ministério dos Povos Indígenas, para tratar das demandas relacionadas à revogação do Decreto nº 12.600 e aos impactos da política de desestatização sobre os rios amazônicos.
Em coletiva junto com a ministra Sonia Guajajara, Boulos disse após um processo de discussão dentro do governo, que ouviu várias posições, hoje se firmou a decisão pela revogação do decreto 12.600. “Este é um governo que tem compromisso com a escuta do povo, com a escuta dos trabalhadores e dos povos indígenas. Esse é um governo que leva a escuta ao ponto de recuar de uma decisão própria por entender e compreender a posição desses povos”, disse Boulos durante o anúncio.

A mobilização indígena em Santarém contestava a inclusão de trechos dos rios Tapajós e Tocantins-Araguaia, no Pará, e Madeira, no Amazonas e Rondônia, no Programa Nacional de Desestatização (PND), medida assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em agosto de 2025.
Apesar de o Ministério dos Portos e Aeroportos (Mpor) reforçar que o Decreto nº 12.600 não tratava de privatização, mas apenas autorizava a realização de estudos técnicos, o alerta do movimento indígena apontou que a medida poderia abrir caminho para concessões hidroviárias à iniciativa privada, incluindo obras de dragagem e maior fluxo de transporte dos commodities do agronegócio, impactando comunidades e aldeias ao longo dos rios. Além disso, o movimento indígena denunciou a falta de consulta livre, prévia e informada às comunidades afetadas, direito garantido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
“Uma vitória do movimento organizado, que há 33 dias em Santarém ocupou o prédio de uma das maiores multinacionais exportadoras de soja do mundo, que é a Cargill. Todos nós entraremos para a história pela revogação desse decreto”, disse Lucas Tupinambá, coordenador do Conselho Indígena Tapajós Arapiuns (CITA).
Em pronunciamento nas redes sociais do CITA nesta terça-feira (24), o cacique Rogério Arapiun falou sobre os próximos passos da ocupação. Em até 48 horas, os indígenas devem sair de forma organizada das instalações da Cargill, período em que será realizada a limpeza do local.
“Temos alguns dias ainda aqui, para poder deixar o local limpo. Tem muita coisa que precisa ser desmontada. Entramos em contato com todas as lideranças que estão aqui para dar o prazo de 48 horas. Podemos até sair antes, mas esse é o nosso prazo para desocupar todo o ambiente”, declarou.
Pressão do movimento indígena
O movimento indígena ocupou por mais de um mês a praia da Vera Paz, local das instalações da Cargill. Mais de 1.200 indígenas de 17 povos estavam mobilizados desde o dia 22 de janeiro em defesa dos rios e territórios tradicionais da Amazônia. De acordo com o movimento, o acampamento funciona sob gestão coletiva, com logística própria de alimentação, higiene e segurança, além de contar com apoio da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI).
Ainda nesta segunda-feira, as lideranças haviam dado o prazo de até a próxima sexta-feira (27) para que o governo federal apresentasse uma resposta concreta sobre a revogação do Decreto nº 12.600/2025. A decisão foi anunciada em nota pública divulgada após assembleia realizada por caciques, cacicas e lideranças dos povos Munduruku, Tupinambá, Arapiun e Kumaruara das regiões do Baixo, Médio e Alto Tapajós.
A principal reivindicação dos povos originários era que o decreto fosse revogado de forma definitiva. Diante do silêncio das autoridades, o movimento anunciou que, caso não houvesse encaminhamentos institucionais dentro do prazo estabelecido, o movimento poderia deliberar novas medidas de pressão política como forma de protesto, incluindo a possibilidade da queima de um comboio de balsas de transporte de grãos.
“Queremos que essa mensagem chegue até o governo e empresas. Estamos pedindo cinco dias para revogar o decreto de morte que vai matar a vida dos nossos filhos, a vida do Tapajós. O prazo já está dado, esse recado já está dado!”, disse a liderança Maria Leusa Munduruku.
Protestos avançaram

Na sexta-feira (20) centenas de pessoas participaram de um protesto em frente ao escritório corporativo da Cargill em São Paulo (SP), no bairro do Morumbi, com intuito de ampliar a visibilidade do conflito. Em sequência, na madrugada do último sábado (21), povos indígenas e comunidades tradicionais ocuparam de forma pacífica a sala de operações da Cargill em Santarém, após 31 dias sem respostas concretas do governo federal em relação às suas demandas. O episódio ocorreu logo após decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, proferida na sexta-feira (20), que determinou à União a adoção de medidas no prazo de 48 horas para a liberação das vias de acesso ao terminal da Cargill.
No entanto, a Justiça negou o pedido de reintegração de posse. Segundo o juiz Eneias Alexandre Gonçalves Torres, da Subseção Judiciária da Justiça Federal em Santarém, a adoção de medidas para desocupar a área não seria adequada durante o plantão judicial. Ele argumentou que há mulheres, crianças e idosos entre os manifestantes, o que eleva o risco de agravamento do conflito em caso de eventual uso de força policial.
Em uma carta aberta divulgada ao público, CITA declarou que a decisão de ocupar o escritório foi construída de forma coletiva, a partir da escuta dos mais velhos, de análises jurídicas e políticas e da indignação diante do Decreto n° 12.600. Segundo a organização, a ação veio após “após um mês completo de silêncio institucional e ausência de respostas concretas”, e não foi impulsiva nem violenta.
“Estamos aqui porque defendemos o direito de existir. Durante trinta dias aguardamos posicionamento oficial do Governo Federal. Solicitamos diálogo com a Presidência da República, a Casa Civil e o Ministério dos Transportes sobre os impactos do decreto nos territórios indígenas e nas comunidades tradicionais atingidas pelo chamado ‘Arco Norte’. Não houve resposta efetiva”, diz um trecho do documento.
Na manhã desta segunda-feira (23), uma delegação de homens, mulheres, crianças e jovens da Terra Indígena Maró, território tradicionalmente ocupado pelos povos Borari e Arapiun, em Santarém, chegou para apoiar a ocupação no terminal da Cargill. Os indígenas levaram alimentos produzidos no próprio território para reforçar a luta e doar aos acampados. A ocupação também conta com o apoio dos povos Kayapó e Panará, vindos do Alto Xingu, no Mato Grosso.
“A luta contra a dragagem do rio Tapajós não é a luta de um povo, mas sim da nação indígena que é contra esse tipo de projeto”, manifestou o cacique Dadá Borari.
Ameaças e intimidações
Na linha de frente das ocupações, as mulheres e jovens indígenas sofreram ameaças e intimidações por sua atuação. Lideranças como Alessandra Korap Munduruku, Maria Leusa Munduruku e Auricelia Arapiun organizaram a luta coletiva, a comunicação e a articulação política do acampamento. Não houve registro oficial de agressões físicas contra mulheres dentro da ocupação, mas as lideranças relataram hostilidade nas redes sociais e discursos que classificaram o movimento como “radical” ou “ilegal”, narrativa que pode legitimar violência contra os povos indígenas.
O episódio mais grave de violência ocorreu no dia 5 de fevereiro, quando a ocupação já estava em curso havia duas semanas. O vereador Malaquias José Mottin (PL) avançou um carro contra as barricadas e os indígenas que se manifestavam no cruzamento das avenidas Tapajós e Cuiabá, próximo à entrada da Cargill. Ninguém foi ferido e o vereador virou alvo de processo de cassação na Câmara Municipal de Santarém.
Lideranças indígenas dos povos impactados pelo decreto 12.600, juntamente com o Jurídico da articulação dos povos indígenas do Brasil (APIB) estiveram reunidas com representantes da União das Nações Unidas (ONU) na Casa da ONU Brasil, para tratar da revogação do Decreto 12.600/2025, que impacta diretamente os rios Tapajós, Madeira e Tocantins (Foto: @tukuma_pataxo/APIB).
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Esta matéria foi atualizada às 15h45 do dia 24 de fevereiro de 2026 para incluir informações sobre a assinatura da revogação do decreto e publicação no DOU e sobre a previsão de saídas dos indígenas da ocupação na Cargill.
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