O economista César Grafietti, especialista em gestão e finanças do esporte, detalhou os pilares e as possíveis sanções do fair play financeiro que vem sendo aplicado no Brasil.
Grafietti foi um dos consultores contratados pela CBF para o desenvolvimento do modelo de fair play e é um dos diretores da ANRESF (Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol), órgão criado para a implementação do Sistema de Sustentabilidade do Futebol Brasileiro.
O economista explicou que o fair play desenvolvido em parceria com os clubes é baseado em sistemas europeus com algumas adaptações para atender às demandas do país.
“Desde o dia primeiro de janeiro desse ano, já existe uma agência de reestruturação e sustentabilidade, que controla se os clubes pagam as suas dívidas em dia, se as dívidas estão equilibradas. Se os clubes tem a condição de honrar seus pagamentos. O objetivo é garantir que sempre que um clube contrate um jogador consiga pagá-lo”, disse.
“Nós estamos muito animados que vamos conseguir aqui aplicar as regras que foram criadas no ano passado”, completou.
Segundo Grafietti, o primeiro pilar do fair play financeiro é a sustentabilidade, que significa que um clube não pode atrasar nenhum pagamento, seja a atletas, a outros clubes ou pagamento de impostos e encargos.
Possíveis punições
Caso os clubes atrasem os pagamentos, o sistema conta com um grupo de sanções.
“Você pode ser sancionado desde tomar uma multa até sofrer um transfer ban, que é a impossibilidade de contratar e registrar atletas, eventualmente perder pontos em competições, até ser rebaixado”, listou Grafietti.
Primeiro, o clube devedor recebe uma advertência. Caso siga sem pagar, a sanção se transforma em uma multa e a seguinte é um transfer ban.
“Aí você vai entrar nessa sequência, sofre um transfer ban, pode sofrer perda de pontos, pode até ser rebaixado em alguma competição, caso durante o processo não consiga colocar em ordem, não consiga colocar em dia pagamentos que estejam em atraso”, explicou.
O Sistema de Sustentabilidade do Futebol Brasileiro entrou em vigor a partir do dia 1º de janeiro de 2026. Portanto, toda dívida adquirida a partir dessa data não pode ter atraso. Quanto às dívidas anteriores, feitas até o dia 31 de dezembro de 2025, os clubes receberam um prazo de até 10 meses para que esses passivos sejam reestruturados.
Clubes denunciados
Segundo Grafietti, existem dois tipos de processos para apuração das dívidas. No primeiro, os clubes informam se têm dívidas em atraso e, no segundo, podem ser denunciados. Essa denúncia pode ser feita por um atleta, por exemplo. E essas denúncias já começaram a surgir.
“Tem duas ações, que são públicas inclusive. Uma contra o Botafogo, né? Foi uma denúncia sobre os números do Botafogo, já do ano passado ainda. Foi aberto um processo sobre isso. E outra para Ponte Preta, que foi uma informação que nós recebemos da imprensa, dizendo que havia atrasos de pagamento. Então, tem dois processos que são público. Agora, há outros processos que devem ser encaminhados a partir de agora”, afirmou Grafietti.
CBF empenhada
Grafietti acredita que o fair play financeiro brasileiro não será apenas uma regra “para inglês ver”. O especialista vê potencial na regulamentação, principalmente por dois motivos: demanda dos próprios clubes e engajamento da CBF.
“O processo foi com construído junto com os clubes, né? Então 34 clubes participaram do processo de construção do regulamento. E nós temos primeiro o enforcement da CBF para dizer: ‘Façam o que tem que ser feito porque isso é importante para o futebol brasileiro’. Os clubes estão cientes que isso vai acontecer”, explicou.
“Acho que agora nós temos uma CBF empenhada em fazer isso acontecer, tem a criação de um órgão específico para isso e, de novo, acho que tem muitos clubes demandando esse tipo de ação. Hoje o futebol brasileiro está separado em dois grupos: um grupo de clubes muito bem estruturados saudáveis e um grupo que ainda está em desequilíbrio, com com dificuldades que acabam atrapalhando a competição”, completou.
CNN Esportes S/A
Com César Grafietti, economista especialista em finanças do esporte e responsável pelo relatório “Convocados 2026”, o CNN Esportes S/A chega à 140ª edição. Apresentado por João Vitor Xavier, o programa aborda os bastidores de um mercado que movimenta bilhões e é um dos mais lucrativos do mundo: o esporte.
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O que muda no futebol brasileiro com o fair play financeiro?

